quinta-feira, 14 de janeiro de 2010

La Dolce Vita



Francisca João Teixeira da Silva. 32 anos. Discreta, quase insignificante. Casada. Sem filhos. Fiel da Igreja da Cruz Erguida para o Bem das Almas. Trabalha, desde os 14 anos, como secretária da prefeitura de Guarujá-Mirim, cidade onde nasceu e nunca saiu. Seu maior lazer e diversão: ler entrevistas sobre pessoas que salvam – ora um médico da Cruz Vermelha, ora um pastor que serve sopa nas madrugadas frias de alguma capital distante. “Isso sim é vida”, pensa. Reclamar da vida seria até pecado, afinal, tem um bom marido, um trabalho e uma casa pra morar. O que mais ela poderia querer?


Dia desses, o novo prefeito, homem de visão, aconselhou Francisca a estudar na capital, fazer faculdade. Era inteligente demais para aquele fim de mundo. Foi o maior elogio que ela recebeu na vida. Saiu mais cedo do trabalho, chegou em casa e pegou o marido transando com sua prima no sofá. Eles nem notaram sua presença.

Francisca, em silêncio, foi para o quarto. Na pequena mala colocou três vestidos, um casaco de lã e um par de sapatos. Pegou suas economias e saiu pela janela, não queria ser vista. Na rodoviária comprou uma passagem para o Rio de Janeiro. No banco duro, enquanto esperava o ônibus, ela suspirou e sorriu. Seus únicos planos: conhecer o mar e estudar enfermagem.

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